PRÓLOGO 

Levando-se em consideração o convencimento de que a leitura também pode ser considerada uma miragem, visto que as narrativas apresentadas às vezes dançam sob as vistas do leitor, embebidas de dúvida: ilusão ou fato? Citarei como exemplo do convencimento o seguinte texto. O personagem tinha obsessão pelo glamour póstumo, coisa que não lhe seria permitido. Então, a fim de realizar a obstinação, relatou no programa de rádio “Estranho Desejo” a sua condição de milionário predisposto a se tornar um “pomba azul” porque era o seu desejo. Garantiu que, na manhã do dia seguinte, estaria nas escadarias da Igreja Santa Helena para revelar esses nomes de parentes e de amigos que constavam no testamento. Porém, nas primeiras horas da manhã do dia seguinte, o que os ansiosos madrugadores avistaram nas escadarias da igreja foi o corpo de um perfumado e elegantemente trajado homem, tombado sem vida. Fato detalhadamente noticiado em diversas rádios fizera com que aumentasse o número de curiosos. Ao meio-dia já se falava em mais de cento e cinquenta mil pessoas concentradas em torno da igreja. Organizados em fila passavam ao lado do corpo, esperançosos de ter o nome constando no testamento. O apresentador do mencionado programa estava presente e observava a movimentação. Em dado momento, estudou as feições de uma senhora que passava ao lado do moribundo: sinceras. Deveria conhecer o milionário. Seguiu-a. A abordada senhora então revelou que o conhecia. Era o pobre solitário Celestino. Deveria ter economizado anos para obter aqueles trajes. As paredes da humilde residência repleta de recortes de jornais e revistas destacavam vultuosos velórios e sepultamentos de personalidades. “Era o seu desejo.” Certamente se suicidou, mas alcançou o sonho. Acreditava que seria o velório mais expressivo de todos os tempos.

Analisando o contexto, resta a pergunta: Ilusão ou fato? Assim vou paulatinamente construindo narrativas embebidas de miragens.

 

À ESCURIDÃO ANTEVÊ-SE A LUZ.