SALVOS PELA TRAGÉDIA

O que seria sorte de boi na boiada? Num episódio, não raro, felizmente. Os nossos amigos Dênis e Francine experimentarão sorte de boi na boiada.

Os dois estavam felizes, haviam conhecido cinco países, e Guepol seria o derradeiro destino. Desceram no aeroporto, recuperaram as duas pequenas malas na esteira e, ao caminharem de encontro à saída, um policial solicitou que os acompanhasse. Num reservado, as mochilas que também carregavam, foram abertas, vasculhadas e liberadas. Quando as duas pequenas malas, que haviam sido recuperadas na esteira foram abertas, foi encontrado, em uma delas, um embrulho onde deveria estar um laptop. Deveria. Pois o que havia, um conteúdo suspeito que se confirmou, para surpresa de ambos, tratava-se de éster do ácido benzoico. Dênis e Francine empalideceram. Sem saberem como explicar o acontecido, afirmaram veemente que o conteúdo não pertencia a eles. O tradutor de plantão, ironizando, disse que acreditava. No entanto, o promotor público é quem deveria bater o martelo. A ‘parede’ os ouviu e, sem delongas, os encaminhou para um presídio, acusados de traficantes internacionais… No camburão, seguindo para a cadeia, procuraram se lembrar do que poderia ter acontecido. Recordaram então, de que, na noite anterior à viagem que fizeram para Guepol, haviam saído e deixado as duas pequenas malas já arrumadas no quarto do hotel. Acreditaram, pois, que foram remexidas por algum hóspede ou por alguém da recepção que poderia ter substituído o pequeno laptop, de uns três quilos, pela droga que, certamente seria recuperada posteriormente ao deixarem o aeroporto, por algum suposto policial ou seria tomada à força por algum comparsa do malfeitor. Apresentados no presídio, tiveram as cabeças raspadas, receberam uniformes e foram atirados numa jaula exclusiva para os acusados de tráfico internacional. O sistema prisional de Guepol era atípico. Consistia numa imensa área murada com jaulas ao ar livre, cobertas e vigiadas por câmeras. Em cada uma havia trinta camas. Com banheiros restritivos ao sexo, as jaulas abrigavam ambos os gêneros.
–… Contato com os familiares e advogado, só depois que o processo começasse a tramitar. O tempo médio do início do trâmite seria de quatro anos. É permitido fumar. Porém não há nem cigarro e nem fogo. As regras do bom convívio, válidas em todo sistema prisional, são, dentre muitas outras, o tom moderado de voz. Nada de discussão e atrito físico. Em caso de violação de uma das regras, todos os ocupantes da jaula, rebeldes, serão punidos com o recolhimento dos cobertores, sem data prevista para devolução. – disse pausado um veterano detento num bom espanhol…
Deprimidos, devido à realidade que havia caído sobre eles, ficaram por sete dias recolhidos no casulo do abatimento profundo. Lágrimas não mais havia. A todo momento diziam que a sorte fora a de terem permanecido juntos.
–… O ‘sonho sonhado’ por um canadense que por aqui passou é o nosso consolo. Consiste numa imaginária escavação vertical situada sob a cama de número 17, que culminaria num túnel horizontal a trezentos metros depois, nas areias do difuso Rio Sulin.
Então, não raro, havia alguém deitado no chão mirando o assoalho da mencionada cama. O Dênis e a Francine deitaram no chão e olharam. O acalento tornou-se hábito.
Fora no centésimo oitavo dia. A porta da jaula foi aberta e sido atirada para dentro uma mulher de idade avançada, acusada de tráfico internacional. Apresentava–se fora do padrão convencional de ingresso. Em trajes civis e os cabelos sido tosquiados e não raspados. Chamou atenção dos futuros companheiros. Atônita, disse que conhecia a região, havia forte rumor de que a barragem Sulin estava prestes a romper. Caso rompesse, a misericórdia da administração do presídio teria de ser mais que veloz, pois teriam apenas quinze minutos para evacuarem a área. A conversa transmitida em espanhol logo se propagou entre os 27 ocupantes da jaula em questão.
–… Algo de anormal está acontecendo… – observou alguém.
As jaulas eram distribuídas na imensa área do presídio como se fosse loteamento. Havia, portanto, ‘ruas’ entre as mesmas. Algo de anormal que estava acontecendo significava expressiva movimentação do pessoal da administração caminhando pelas ‘ruas’. Soar de sirene ouvia. O pessoal da administração não mais caminhava, corria. A sirene voltou a soar e, logo em seguida, forte estrondo ouviram. O desespero tomou conta do presídio. Os enjaulados pediam aos gritos para que as portas das jaulas fossem abertas. Atônito e indiferente às suplicas, o pessoal da administração corria na direção da saída do prédio. Dênis e Francine, igual aos companheiros, reforçavam, juntos às grades, os apelos ecoados por todo presídio. Então, por sorte. Mera sorte. O molho de chaves de um dos desesperados monitores caiu no chão. Recolhendo imediatamente a penca de chaves, às pressas, destrancou a porta da jaula em foco. Dênis e Francine foram empurrados para fora pelos afoitos colegas. Uniram-se as mãos e trataram de correr. Deixaram as dependências do presídio e, correndo, entenderam que ali era uma cidade com expressivo número de habitantes. Corriam, sob alerta de que a cidade logo seria inundada. Sem fôlego, atingiram uma praça. Caminhões apinhados davam partida. Subiram na carroceria de um deles. Quando arrancou, sentiram–se aliviados. Porém o tormento não tinha acabado. Na capital, então povoada de refugiados, dormiram por cinco noites na rua. Uma tinturaria cedeu roupas de civis para eles. A orientação do atarefado governo local para com as embaixadas dos países de origem dos detidos que haviam conseguido escapar foi para que os despachassem nos voos. Então, quando o avião em que Dênis e Francine, estavam ganhou altitude e manobrou para pegar a rota de destino, avistaram do alto o estrago causado pela monstruosa barragem rompida. Falava–se em dezenas mortos. O presídio… A cidade enfim. Repousava sob as águas do então libertado Rio Sulin.
–… Escapamos por sorte… – comentou o azulado Dênis, olhando do alto o estrago lá embaixo.